O cobrador Mário do ônibus JD Vaz de Lima …

Era 2006, todos os dias eu tinha que ir ao meu emprego na zona sul de
São Paulo passando por prédios lindos onde só os deuses moram, lá no paraíso do Morumbi, o meu recalque era total e ver tantos lugares lindos e não ter dinheiro nem pra comprar uma pedra que pavimenta as ruas daquele local, enfim, até aí tudo bem, minha predestinação é ser um fodido de marca maior mesmo.

Todos os dias para eu ir para a zona sul de São Paulo eu pegava um ônibus chamado Jd. Vaz de Lima, a viagem era longa mas eu sempre gostei de passear mesmo, afinal é o que me resta, não transo, ninguém me quer, só me resta perder tempo com essas coisas que ninguém presta atenção. Minhas amigas com uma vida sexual riquíssima e sofisticada que trabalhavam onde eu trabalhava, também pegavam esse mesmo ônibus.

Nesse ônibus tinham vários “personagens”, entre eles tinha um motorista topetudo de cabelos bem preto, bonito mas sempre mal humorado que pilotava o ônibus acima da velocidade permitida, era um barbeiro, ele percebia o meu jeito de gay e sempre que eu dava sinal para ele parar o ônibus ele nunca parava, ou desviava o ônibus ou passava direto mesmo na cara dura, provavelmente queria bater aquelas metas malucas de empresa juntando com o prazer homofóbico ridículo dele, enfim, já havia me acostumado com o desprezo solene destinado a mim por parte dos homens.

Havia também um outro motorista que minhas amigas sempre ficavam conversando altos papos com ele lá na frente do ônibus, elas iam conversando até o ponto final, eu ficava lá atrás no banco sozinho, não queria atrapalhar, elas nem me viam. Junto com esse motorista vinha um cobrador muito simpático e falante, ele não tinha um dente da frente mas era lindo, os seus olhos verdes em conjunto com a sua simpatia eram fatais para pessoas encalhadas como eu, o nome dele era Mário, aparentava ter uns 25 anos, conversava com todo mundo, até mesmo eu. Eu me espantava e ficava todo sem jeito afinal eu sou gay, naturalmente rejeitado por toda sociedade quando não apresento utilidade alguma para alguém, me aterrorizava um cara com um olhar igual ao do Paulo Dybala, vir falar comigo sorrindo, era algo surreal para a minha concepção, na normalidade sabemos que as únicas pessoas que fingem ser simpáticas para nós, homossexuais passivos heterófilos, são as mulheres, os homens novos e ainda bonitos, se pudessem nos matavam, em sua maioria eles são pra lá de homofóbicos!

Pois bem, enquanto as minhas amigas viviam aos papos com o motorista lá na frente do veículo, eu ficava lá na parte de trás reparando o tal cobrador, o Mário, ele usava correntinha de ouro, camisa polo, calça jeans e uns tênis nike bem caros, as mulheres de todos os tipos adoravam pegar o ônibus Vaz de Lima e ir até o paraíso do Morumbi conversando com ele, falante, bonito e com um olhar vivo, qualquer uma teria vontade.

Eu entrava no ônibus e Mário me cumprimentava, sempre com um olhar de vida e felicidade , eu tinha muita vergonha pois a gente que vive sendo escorraçado por homem a vida inteira, quando conhece um homem que é bonito e que te trata bem com uma felicidade no olhar, você fica balançado, sem reação, você até se pergunta: será coisa do capeta? Pense: você nasce e a vida inteira você é maltratado, humilhado, deixado de lado, desprezado, enquanto todo mundo à sua volta transa, trepa e fode, você acaba crescendo sem ter noção de paquera, de namoro ou sexo, você nunca sabe quando um homem bonito é simpático por ele ser mesmo assim com todo mundo ou se é porque quer te matar ou te paquerar, falta-lhe vivência, experiência e tato, se bem que um cara hétero nunca vai querer algo mesmo comigo, então seria um conhecimento inútil, ok, pode ser, mas quando um cara bonito que te agrada lhe trata bem, você tem um buffer overflow no cérebro, você se vigia, se controla para não dar pinta mas o simples fato de você lutar para disfarçar o que sente já lhe deixa em evidência pois você passa a não ser natural e com isso comete vários erros grosseiros ao agir, de forma que qualquer um percebe que você está fortemente perturbado. Os homofóbicos bonitões percebem facilmente que você é gay por isso.

Pois é, a vida para nós homossexuais é sempre muito traiçoeira: Teve um dia em que eu fui todo feliz pegar o Vaz de Lima só para ver o Mário, de propósito eu fui me sentar bem pertinho, de frente ao lugar onde ele, o cobrador, ficava, só de pirraça, nesse dia Mário estava com a cara fechada e nem comigo falou, andei o caminho inteiro perto dele e ele nem me disse um oi. Não era comum, mas como eu sou genioso, peguei ódio e fui me sentar lá atrás do ônibus, nunca mais quis papo com ele, me deu raiva, que desgraça, parece que o mundo programa você para ser infeliz por toda eternidade cósmica!

Passaram-se alguns meses e teve uma vez que eu desci no ponto final do ônibus, adoro ônibus vazios para só eu passear sozinho apreciando a paisagem, amo isso. Nesse dia só estava eu, o motorista amigo das minhas amigas ricas sexualmente e o cobrador chamativo Mário, eu me levantei para descer do ônibus que já estava desligado, estava olhando para baixo sem muita esperança com nada como aprendi a ser, nem quis olhar pra cara do senhor Mário, então o infeliz surge em minha frente, todo vivo e sorrindo, com um olhar e uma presença pra lá de forte, ele me cumprimentou e eu por educação fiz o mesmo e me despedi de forma bem fria pois eu havia ficado com raiva, o cara é bonito, chamativo, um olhar vivo, não quer nada comigo , quando eu chego perto dele ele me ignora e do nada vem falar comigo, isso irrita! Isso fazia as minhas emoções ficarem em uma montanha russa.

Cheguei no meu emprego com o sorriso de Mário na minha mente, fiquei irritado e triste porque todo tipo de cara que eu gosto passa por minha vida e eu não posso fazer nada, exatamente como aqueles prédios lindos que eu falo lá da rua Franz Schubert: você vê, olha, passa pela frente e sabe que nem morrendo e nascendo umas 14 vezes você terá condições de ter. É assim a minha vida, meus caros! Tudo o que eu quero, eu não tenho.
Comentei ingenuamente com as minhas amigas sobre o Mário, elas me falaram que eu tinha bom gosto e modéstia à parte, eu sei que tenho mesmo, todo cara que eu gosto, chove mulher do céu pra ele. É sempre assim. Então eu perguntei se no dia seguinte elas poderiam dar um recadinho meu para ele, afinal ele me olhou de uma forma tão forte e alegre que eu, inexperiente nessa área, já fiquei pensando coisas…
Que audácia recorrente a minha! Mandar recados para um hétero top!

No dia seguinte a noticia ruim me chegara: ansioso fui logo perguntar às minhas amigas o que Mário me respondera, elas com uma cara luto me prepararam para a notícia: elas me falaram que o simpático Mário havia me xingado até a 64876476578465746754857465783 geração, fiquei visivelmente triste, tentei disfarçar mas não dava, todo mundo no emprego percebia que eu estava taciturno , sim, mais uma vez eu entendia o recado da vida pra mim que o meu problema só seria resolvido com a morte, a gente sabe disso mas sempre tem uma esperança gaiata dentro da gente nos iludindo e querendo nos levar para o buraco. Troquei de ônibus e nunca mais quis saber daquele cara!

Enquanto isso, a vida sexual das minhas amigas folgadas iam de vento em popa, tanto que um belo dia, sexta feira à tarde, no final do expediente eu fui atender a campainha do meu emprego e quem eu vejo de carro vermelho parado na porta esperando as minhas amigas? O motorista do ônibus do Mário. Perguntei: –Ué! Você aqui? Fiquei rindo e o mandei entrar, afinal eu não falava nada com ele mas a gente se conhecia de tanto eu pegar o ônibus dele. Minhas amigas estavam pra lá de produzidas e felizes, o carro era para levá-las para um passeio… Fiquei com muita inveja, afinal eu o viado trouxa, havia levado de forma remota um fora horrível de um cobrador enquanto minhas amigas, que eu nem sei se pagavam passagem, recebiam o motorista de ônibus na porta do emprego delas para levá-las para se divertirem num final de uma sexta-feira a noite, enquanto isso, eu tinha que trabalhar e depois pegar um outro ônibus mais longe pois o meu filme já estava queimado no Jd Vaz de Lima. Quando se é gay como eu, essa mágica de um motorista de ônibus vir lhe pegar de carro na porta do seu emprego, não existe, é coisa de outro mundo, é algo totalmente alienígena.

Essa é a minha vida.

7 thoughts on “O cobrador Mário do ônibus JD Vaz de Lima …”

  1. Nossa, eu tive que ler umas três vezes para ter certeza…
    Você realmente mandou recadinho para um cara hétero? Você teve sorte que ele só te xingou.

      1. Nossa!
        Eles se sentem humilhados e completamente atacados quando demonstramos qualquer interesse neles. É muito perigoso. Eu jamais teria essa coragem que você teve. Não consigo nem olhar um por muito tempo, tenho pavor de apanhar ou coisa pior.
        Vc já assistiu VALENTINE ROAD: O ASSASSINATO DE LAWRENCE KING?
        É um documentário, esse Lawrence era um garoto que era apaixonado por um hétero, vivia atrás do hétero, todo mundo da escola sabia desse amor platônico. O hétero odiava o gay, claro… Até que um dia ele se perdeu a paciência e matou o gay na escola, na frente de todos. O documentário é bem interessante, mostra o processo de julgamento e tudo.

        Enfim, depois que assisti esse documentário fiquei traumatizado, por isso meu espanto com sua coragem. E esses caras poderiam ter te matado!

        1. Pois é… Esse documentário parece retratar bem a nossa vida, eu não o conheço. Eu realmente quase já fui morto na Vila Mariana por conta disso.
          Bom, quando você imagina um hétero todo carrancudo como é o normal, é fácil você evitá-lo. Agora quando o cara que é hétero tem uma certa simpatia, quem nunca teve experiência com relações como nós, fica confuso achando que se não correr atrás como os outros dizem que devemos fazer, iremos perder o amor da nossa vida, aí acabamos nos ferrando. Bom, tem várias passagem nesse blog onde eu conto que já fui atrás de cara heteros que eu gostei, todas as experiências foram um nojo!
          Hoje em dia eu quebro meu dedo mas não vou atrás de filho da puta nenhum, eu quero mais é que eles se ferrem!
          Quando hoje em dia eu penso em ir atrás de alguém eu me pergunto: será que se eu fosse ir atrás de mim mesmo, eu não me assustaria? É muita responsabilidade para o outro saber que uma outra pessoa gosta dele, eu aprendi que essas coisas você não deixa nunca explícito, nem se você fosse heterossexual.

  2. No dia ônibus os cobradores e motoristas são geralmente muito homofóbicos e é nítido quando entra um gay no ônibus é desprezado sem dó nem piedade, vira e meche pego ônibus e vejo que eles são receptíveis até com mulheres mais feia que a bruxa keka, eles dão bom dia e são agradáveis, com os homens heteros eles fazem o protocolo escroto de cumprimento de heteros, agora um gay entra eles são grossos ríspidos nem olha na nossa cara é como fosse um lixo mesmo, tem uns que até são simpáticos mas é para fazer tipo para as mulheres, aprendi que geralmente no meio de mt mulher eles geralmente fazem a linha bom moço com todos mais por dentro eles quer que tu exploda, hoje em dia sou seco ao extremo o que puder de fazer para ser como eles eu faço é uma delicia não nego

    1. É verdade. É bom evitar qualquer tipo de contato com homens, ainda mais assim, eles gostam de se fazerem de valentes em cima de quem eles sabem que a maioria irá condenar, é bom, de preferência, fazer a egípcia quando um falar uma piadinha e sumir discretamente do local para não chamar a atenção.
      Sim, realmente homens perto de mulheres fazem uma linha diferente, até fingem ser higiênicos quando na verdade adoram falar aos quatro ventos das suas imundícies. Urg!
      Com o tempo você aprende a ignorar esses trastes mas que é realmente gostoso ver um desses se foder, ah, isso é!

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