A indiferença adquirida

A indiferença é algo que vim aprendendo com aqueles heterossexuais bonitinhos que eu tanto venho relatando aqui, a gente vai lá, chora nos pés deles, implora um pouco de atenção ou mesmo compreensão e eles se sentem vitoriosos em nos ignorar solenemente, claro, o ser humano bonitinho que nunca sofreu desprezo de ninguém e que portanto não sabe o que é isso, se sente uma pessoa especial, valorizada, disputada e portadora de uma importância gigantesca para o universo quando vê que outra pessoa está tentando lhe agradar e ele esnoba.

Na vida real, os moços heterossexuais até têm o jeitinho especial deles de nos ignorar: uns fazem questão de quando nos vê, levantarem os olhos para cima em sinal de desaprovação, outros baixam a cabeça para evitar que você puxe assunto com eles na rua, afinal de contas, receber a cantada de um homossexual, pra eles, é equivalente a um estupro praticado contra um recém nascido, é abominável! Ah, eu já ia me esquecendo, também tem o desprezo eletrônico, aquele feito pela internet, você fica lá nas redes sociais do cara ou no seu e-mail tentando dialogar e simplesmente o cara lhe bloqueia e ignora sem nem lhe dar uma chance de falar um “oi”. Agora imagine só se você fosse uma vagabunda daquelas que andam com o volume da buceta estampado na calça, aí seria tudo ao contrário, até fazendo sinal de fumaça você obteria resposta da outra parte… Realmente o mundo é do amor…

Por tudo isso eu acabei me tornando uma pessoa diferente nesses anos, eu acabei me contaminando com a frieza dos homens, acabei ficando meio que perverso a ponto de se eu ver algum homem bonito se acidentando na rua, fingir que não vi nada e continuar naturalmente a ir pro meu emprego, se eu ver então um casal de namorados heteros, aí a indiferença vira sadismo mesmo, se um acidente lhes ocorrem em minha frente, eu até começo a rir de felicidade e deixo pra lá, afinal como eles mesmos me ensinaram: o problema dos outros, não é meu!

Eu estou falando isso pois ontem eu fiquei sabendo que uma amiga que eu tinha, com dois filhos e um marido bonito, morreu. Ela era bem próxima de mim inclusive mas nesse ultimo ano eu nem mais tive contato com ela. Sim, ela morreu. Quando eu fiquei sabendo, não fiquei chorando ou atordoado como eu ficava antes quando eu era adolescente ou jovem, simplesmente eu fiquei sabendo da notícia e pensei comigo: Bom, pelo menos ela não irá mais viver num país feio, tendo que ser pobre e gastando todo dinheiro com coisas que nunca lhe darão retorno significativo algum. Sorte tem aqueles que morrem! Eu nem pra isso prestei! Pelo menos ela viveu, fez bastante sexo, viu o que era o tal do amor, trabalhou, conseguiu fazer uma faculdade e deu boas respostas a quem merecia. E eu? Nunca se quer tiver qualquer tipo de relacionamento, nunca fiz sexo, nunca fiz algum investimento na vida que me desse um emprego melhor. Se eu morrer, ninguém nem vai saber ou sentir falta. Por isso que eu fiquei assim, indiferente, eu não consigo nem mais sentir comoção pelas pessoas conhecidas da minha vida, virei uma pedra de gelo, mas isso é até bom, os heterossexuais me ensinaram a sempre descartar o que eu sinto, engolir e guardar pra mim, de tal forma que agora eu não sinto mais nada a não ser felicidade quando a vida deles vai de mal a pior, quando eu vejo que um homem heterossexual está sendo traído pela esposa, eu nem falo mais nada, deixo isso pra lá, mesmo que eu o conheça, afinal, eles gostam é de mulher e eu não tenho nada que ver com a vida e problema deles.



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