Rotina

Qual é a rotina de um gay que odeia ser gay?

Como é a vida de um homossexual que gosta apenas de heterossexuais e que odeia ser gay?
Bom, irei dizer sem muita enrolação:
Geralmente a nossa rotina é acordar, comer, se arrumar mas não tanto, afinal nós sabemos que ninguém que nos importa vai reparar em nós mesmo, se a gente se arruma muito a ponto de ficar “bonitinho” pros outros, chamamos a atenção de outros gays ou de mulheres que nunca se tocam, já não satisfeitas com os inúmeros homens que elas têm, ainda querem os gays; Aí saímos e vamos trabalhar.

No trabalho temos que nos empurrar, nos dar mais força do que um hétero necessitaria, afinal nós não estamos em maioria, sempre ao nosso redor a maioria são os heterossexuais com as suas realidades, rotinas e tradições, muitas delas nos ofende ou nos faz nos sentirmos um peixe fora da água. Muitas vezes um monte de homens heteros senta perto de você no trabalho e ficam falando horas e mais horas sobre futebol como os jogadores fossem amigos e parentes deles, eles falam e falam e falam, e quando acaba o assunto, começam a falar de um jogo de vídeo game ou internet que é sobre futebol e depois começam a falar de futebol de novo: nomes, regras, juízes, tipos de chutes, quem vai se classificar e aí você horas mudo, visivelmente fora do mundo mas eles nem ligam.

bicha velha no trabalhoNo ambiente de trabalho é muito comum as pessoas forçarem uma positividade, um otimismo, uma alegria com ar de gente evangelizada que pra mim que é gay e não gosta de gay, parece falsidade. Depois de um tempo eu comecei a reparar que essa felicidade das pessoas diferentes de mim no trabalho se deve à vida sexual que elas levam: quando gays como eu vão ao trabalho, vão inocentemente só pensando nas tarefas diárias a serem resolvidas, nos problemas que o seu trabalho lhe impõe e nas brigas sutis que acontecem, como por exemplo ser mais duro com um cliente que você sabe que esta tentando lhe enganar. Por muito tempo eu pensei que fosse assim para todos ao meu redor, mas ao decorrer do tempo eu notei que com os rapazezinhos heterossexuais arrumadinhos e suas fêmeas periguetes a forma de se encarar as tarefas eram bem diferentes: o rapaz heterossexual sabe que o tempo todo no trabalho, faça chuva, faça sol, ele sempre terá a oportunidade de fazer uma convivência comum virar um caso sexual, qualquer colega do sexo oposto que esteja no seu ambiente corporativo, pra ele é uma amante em potencial, somando-se a quantidade de pessoas heterossexuais que é a maioria em qualquer escritório de uma grande empresa ao fato que para a sexualidade deles não existe criminalização como existe na nossa, a vida de um heterossexual no trabalho acaba sendo algo mais prazeroso do que a vida de um gay que não gosta de outros gays. O hetero sabe que a mulher ao lado, mesmo sendo casada, pode ter um caso rápido com ele sem que alguém saiba, a mulher, mesmo tendo marido ou namorado, em qualquer lugar numa empresa poderá ter um garotão disponível para fazer o sexo selvagem com ela e no outro dia fingirem que nada aconteceu… Daí aquela simpatia falsa que na verdade serve como chamariz entre mulheres e homens heterossexuais, para uma “amizade” que muitas vezes começa com um assunto besta e termina aos berros numa cama… Ou seja, para o heterossexual é pode ser muito divertido e compensador arrumar um emprego, afinal o emprego novo entre pessoas que não precisam reprimir a sua sexualidade, pode ser um grande shopping center sexual cuja vitrine é você.

E se você for um gay comum, daqueles que se satisfazem sexualmente e afetivamente qualquer tipo gente: gay, bissexual, travesti e o que pintar? Bom, os gays comuns não irão ter tanta facilidade no emprego como eu citei que os heteros têm, porem como gays comuns acham graça em outros gays, mais cedo ou mais tarde eles poderão achar paliativo sexual que os agrade um pouco embora sem tanta riqueza de malícia como existe nos casos heteros.

Agora e o gay como eu que não se sente atraído por nenhum tipo de homossexual, seja ele masculinizado, feminino ou nulo? Como vive no trabalho? Bem, pra mim por exemplo é um saco! você sabe muito bem que o seu trabalho será aquela rotina chata e mais nada! Aquele rapaz bonito que existe no seu trabalho você sabe que não será seu nem daqui a 230 reencarnações pois ele só gosta de mulher! Você não pode falar dos seus gostos sexuais para os seus “amigos” pois esses torcem o nariz e fazem cara feia lhe recriminando mesmo que seja em tom de brincadeira. Sem falar que alguns heterossexuais, para ver você mais ridicularizado do que já é, espalham o boato que você só porque não se veste de mulher, então gosta de ser gay sim mas comendo outros homens, afugentando mais ainda os homens de você. Teve um que uma vez me disse que homem não faltaria pra mim pois o que mais existe é homem casado querendo ser comido! Aff! Eu fiquei até com nojo pois eu nunca tive vontade de comer ninguém!
Então você descobre que o seu trabalho, ao contrário dos heteros e dos gays comuns, é apenas um lugar de trabalho. Alem de você ser excluído das rodas de assuntos, também é excluído da possibilidade que os heterossexuais têm que é ter casos sexuais com está ao seu redor. Para gays iguais mim, a dura realidade é que as pessoas, principalmente os homens desejados, são seres inalcançáveis, intocáveis que nunca podem ser “perturbados” e que só estão ali, no máximo para lhe auxiliarem numa tarefa mais complexa que você não consiga resolver para o seu patrão. Só!

Por isso todos os dias eu chego no meu trabalho, não falo com ninguém, não cumprimento ninguém pois eu sei que a minha função ali é só ser um robô, as minhas emoções não são bem vistas por ninguém mesmo, eu vou embora da mesma forma, não falo com ninguém pois eu sei que ninguém nem falta sente de homossexual ainda mais igual a mim.

Muitas vezes eu até que tento esquecer o meu problema sexual e procuro puxar assunto com os meus outros colegas do trabalho, mas boa parte deles, embora não assumam, nutrem um afastamento de mim, um certo desprezo. Tudo bem, é padrão “obrigacional” de todo hétero de periferia, que manda ao chegar num local, cumprimentar todo mundo, mesmo que não goste. Quase todos, com exceção de alguns que me evitam declaradamente, me cumprimentam com certo desdenho, aí eu inocentemente acho que isso é amizade e vou tentar algum assunto: alguns nem me olham e eu tenho que chamá-los três ou quatro vezes para que me ouçam, eles ficam lá vendo os sites interessantes deles ou suas mensagens no celular, porem quando um outro hétero chega perto deles e puxa assunto com aquelas gírias malditas e chamando tudo no aumentativo(buzão, feriadão, solzão, calorzão, Ricardão, Robertão) , prontamente eles respondem, sorriem e interagem, eu me sinto um boboca de ainda tentar perder o meu tempo em tentar fazer amizade com pessoas assim, tem dias que eu nem mais me esforço para fazer “a social” com colegas, simplesmente me fecho e se alguém me pergunta o motivo, invento uma dor ou dou um sorriso falso.

1.2 E as faculdades?
Bom, as faculdades são os pilares da classe média, se você quiser ser classe média e não um miserável, tem que enfiar suados 30 mil no rabo uma para ser “alguém na vida”, porem eu ignoro isso por detestar o que as faculdades esfregam na minha cara: que eu sou um merda rodeado de gente que eu gostaria de ter mas não podendo ter. Nas faculdades existem vários daquelas rapazes heterossexuais que me excitam até não poder mais, tem outros que me dão vontade de me apaixonar também, porem nenhum deles me dá confiança e ao contrário do ambiente de trabalho onde existe um certo respeito imposto pelo medo de se perder o emprego, na faculdade o respeito o desrespeito são separados por uma linha tênue, nada impede de um homofóbico heterossexual bonitão te olhar sim mas pra te bater ou pra ficar dando trombadas provocativas em você no corredor simplesmente porque não foi com a sua cara.
Sexta feira nas portas das faculdades os alunos ficam todos ouriçados , bebendo, dançando, gritando, se pegando, namorando e tudo mais, você nem consegue passar na rua direito, é muita gente feliz vivendo o que a sua juventude e sexualidade pode lhe dar, mas eu não, eu passo no meio dessas multidões de alunos e alunas de cabeça baixa, com ódio por saber que eu não posso olhar ninguém, ao contrário das vagabundas que ficam todas insinuantes para os rapazes sabendo que uma noite de sexo com algum deles é algo trivial, eu fico triste por saber que aquilo não é pra mim, sexo, paixão e amor não são pra mim, são pra eles! Por isso eu passo de cabeça baixa, sem falar nada, evitando contato a qualquer custo pois eu sei que num ambiente desses eu só irei arrumar confusão. Eu queria muito abraçar algum cara que eu gostasse mas eu sei que não posso. Eu também sei que nas faculdades existem milhares de caras que me dão vontade de conhecer, de abraçar, de namorar ou simplesmente fazer sexo mas isso definitivamente não é a minha realidade.
Por isso eu não faço faculdade, não termino, desisto e paro. É um sofrimento muito grande pra mim me forçar a estar entre pessoas que me atraem mas que eu não posso fazer nada. Dá vontade de matar todo mundo, então sabendo isso, eu evito estar no meio. Consequentemente eu fico muito sozinho.

1.3 As festas.
As festas são uma punhalada em mim, elas mostram o quanto fracassado socialmente eu sou: geralmente em uma festa as pessoas estão lá para se divertirem? Sim, mas qual a diversão de um adulto? Brincar de esconde esconde? Brincar de carrinho? É claro que não. Adultos normais brincam de seduzir, brincam de exercer a sua sexualidade e nas festas as pessoas heterossexuais vão para “conhecerem” outras e com a desculpa de ser apenas um festa, elas podem fazer coisas que na vida real não teriam coragem de fazer: sorrir obscenamente, beijar, abraçar, dançar com alguém e beber. Agora no meu caso, se eu abraço a mulher não sinto bosta nenhuma além de não gostar, os homens na nossa sociedade é feio abraçar, mas se eu abraçar, vai ser o mais feio ou o mais viado ou bissexual, os homens heterossexuais que eu gosto são tão atraentes que não sentem carência por ninguém, logo eles não irão me dar chance de abraçá-los e se eu abraçá-los eu vou ficar muitíssimo tenso, sentindo pavor, afinal o meu emocional fica muito abalado quando alguém que me atrai fica perto de mim, eu logo penso em me disfarçar como sempre fiz a vida toda para evitar apanhar ou ser recriminado, então eu engulo a emoção mas a emoção não acaba, aí eu tenho que mentir que não tenho emoção alguma e os outros percebem que existe algo errado e dissonante e mim, gerando mais desconfiança, afinal, pro tipo de cara que eu gosto, alguém estar nessas insegurança toda, só pode ser viado e viado tem que estar bem longe!
Também existe o caso de graças à sua sexualidade falida, você numa festa querer se grudar a algum amigo ou amiga, afinal, você se sente desprotegido, ninguém quer você por perto pois você não é sexualmente viável , então vai lá você ficar atrás de alguém achando que as pessoas estão em festas para celebrarem a amizade… Coitado! Você percebe que não é bem assim quando as pessoas começam a lhe jogar a indireta que não gostam de ninguém grudando nelas… Isso é uma bofetada na cara. Ou então a pessoa que você fica tentando acompanhar na festa, fala que vai no banheiro para lhe evitar e some. Por isso, festas é algo que eu evito, lá as pessoas também só querem procurar alguém pro sexo. Como sexo pra gays como eu não existe, a melhor coisa é ficar dentro de casa e nunca sair pra evento algum. Por isso eu não gosto de festas!

1.4 Minha higiene pessoal?
Bom, não que eu seja imundo, mas a limpeza pra mim não é a minha maior prioridade igual é para aquelas mulheres malucas que fazem faxina até meia noite. Limpo as coisas só quando  eu quero! Quando estou em casa, eu não tomo banho todos os dias, não penteio os cabelos e nem escovo os dentes. Quando eu saio eu me arrumo pouco, sem exageros. Eu vou lá ficar me arrumando feito um retardado pra no fim ninguém nem se quer me olhar , quando eu me arrumo um pouco mais simplesmente os caras que me olham são os moradores de rua e ex cadeeiros e não é pra dar em cima de mim mas sim para conseguirem alguma coisa minha para a vida deles: meu celular, uma moeda, uma ajuda, uma passagem, ou seja, me enxergam como um banco financiador. Eu não gosto de pentear o cabelo também, só o ajeito muito mal ajeitado, afinal quando eu me olho no espelho e de perfil eu falo pra mim mesmo: que cara mais feio e desgraçado! parece um capô de fusca com nariz. E outra, quando a gente anda arrumado e asseado só viado e mulher fica te comendo com os olhos, me dá muito nojo!
Eu acho que é preconceito ficar jugando as pessoas por eles terem a aparência meio relaxada, no meu emprego por exemplo, a maioria anda engomadinho mas ao irmos no banheiro vemos o qual podre são essas pessoas, só faltam cagar e mijar até no teto, é incrível ! Se você quer conhecer um ser humano, não veja a sua aparência mas repare como ele deixa o banheiro apos o uso quando ninguém o vê!

1.5 Viver em sociedade
Quando você vive anos de sua vida, para não dizer a vida toda, sendo ignora pelas pessoas que significam algo para você, você acaba se acostumando e aí na maioria das vezes você acaba querendo que todo mundo se foda! Se você precisa fazer um trabalho em grupo, você acaba jogando o carro na ladeira  no ponto morto pra ver o que acontece, o “tô me fodendo” nessa situação impera, claro! Ninguém liga para as suas necessidades, pra que você vai querer fazer algum tipo de capitulação com a mesma sociedade que lhe pisa? Quando se vive assim você quer mais é que tudo se expluda! Na verdade isso é um reflexo do que a sociedade já faz com você.
O heterossexual quando está arrumadinho, todo mundo quer chupar a sua buceta o seu pau e tudo mais. Já você quando é viado e está arrumadinho, todo mundo quer é te roubar e te espancar.

1.6 A minha vida sexual?
A minha vida sexual resume-se apenas a imaginar, imaginar que sou uma mulher pra lá de vagabunda que faz sexo de todas maneiras com homens bem rapazinhos mesmo(nada de feminino) , depois eu vou no Xvideo, procuro algum vídeo onde tenha um homem escandaloso transando com uma mulher que não presta, me masturbo, fico sentindo uma inveja danada e pronto. As vezes quando eu quero variar, eu vou no chat do UOL e me passo por uma mulher de vida fácil. É tão incrível, quando eu me passo por mulher os homens me tratam com interesse que pra mim é algo alienígena, transcendental que na vida normal eu nunca tive, isso me dá depressão depois pois eu sei que aquilo não pode ser pra mim de verdade.

Então você pára e pensa: como a sexualidade faz falta em nossa vida! Sem ela funcionando bem, vivemos feito pedras jogadas num canto, não existe motivo de se viver, não existe graça, não existe o porquê de estarmos aqui, não existe aquela distração que alivia a sua rotina, você só vive pra comer e pagar dívidas, mais nada. Você não brilha, nem nas redes sociais. A sua vida é insossa, sem motivo, mecânica, parece mais uma doença contagiosa onde todo mundo tem que te evitar. E depois uma vagabunda que transa todos os dias com vários machos, se vira para você e diz que você tem que se gostar, ser feliz e amar a vida… É realmente uma afronta que eu tenho que aguentar calado.