A luta contra a própria sexualidade

Quem odeia ser gay sabe que uma das maiores lutas ocorre no campo das ideias, no nosso mental, sim, o tempo todo você sabe exatamente que não pode ser correspondido por quem gosta, não pelo menos as homossexuais que gostam só de heteros como é o nosso caso.

Você sabe que por mais que você veja os casos de adultérios onde mulheres enganam os seus maridos para se encontrarem com os melhores amigos deles em locais estranhos usando desculpas esfarrapadas que dão ódio, por mais que mulher os desagrade, é só para as mulheres que eles tem carinho, amor e vontade sexual.

A gente sabe que a nossa necessidade fisiológica ou psicológica de abraçar, ter intimidade ou mesmo fazer sexo com alguém que nos inspira, ao contrário das outras necessidades do corpo, não pode ser atendida de forma alguma. O homem heterossexual tem algo que nos causa interesse sexual e afetivo real, não sabemos explicar exatamente o que, não é questão só da roupa ou não se desmunhecar, a personalidade hetero a nós, é muito atraente, mais atraente que a personalidade feminina ou a personalidade gay.

O pior é que todos os dias somos testados quanto a isso, é no ônibus, é na rua, é nas lojas, é no avião: Vira e mexe e pronto! Você está lá, cara a cara com um tipo de homem que é exatamente aquilo que você sempre desejou, do dedo do pé até os fios de cabelo e não pode fazer absolutamente nada.

Teve uma vez, recentemente que aconteceu algo engraçado comigo, eu estava entrando num ônibus sem nem se quer pensar em assuntos sexuais, estava muito calor, eu fui entrando e meu intuito era sentar lá na parte dos fundos do ônibus, de repente, lá perto do assento onde eu queria ficar estava um jovem com cara de uns 23 anos, exatamente do jeito que eu gosto e descrevo nesse blog: sério, bonito, cabelo cortado no estilo militar porem estava trajando bermuda e camiseta regata, parecia ser de classe média, sentava tradicionalmente como todo hetero jovem gosta de sentar: de pés e pernas abertas ocupando o espaço todo no banco. Na hora eu fiquei com a cara de quem tivesse visto assombração e preferi ficar em pé , parado perto da porta, evitando a qualquer custo olhar para o rapaz, afinal ele havia me olhado com uma cara de poucos amigos e de forma bem enfática, como se tivesse detectado na hora o meu interesse de viado por ele. É claro! Esses caras bonitos e ruins detectam um viado a quilômetros, da mesma forma que nós gays também detectamos outros gays. Logo que vi aquele rapaz eu já pensei nesse blog aqui: encontrei mais um hetero bonito daqueles que eu descrevo naquela porcaria de blog falido que eu faço!

Pois bem, eu fiquei notoriamente perturbado com a presença daquela rapaz ali onde eu queria sentar, na verdade eu estava me reprimindo, eu digo que a minha boca ficou salivando demais naquele momento, eu queria mesmo é agarrar aquele cara, sentar no colo dele e ficar beijando e sentindo cheiro dele. Eu queria me “sujar” dele, sabe se lá o porquê, coisas do instinto animal, mas eu me controlei, me controlei com muito medo pois eu me sentia uma presa na frente de um lobo, eu imaginava que ele já tivesse detectado a minha fraqueza. É serio, me senti uma mocinha indefesa perto dele, por um lado eu gostava disso, por outro lado eu tinha medo pois estava escrito na cara daquele jovem que ele era homofóbico à nona potência! Ok, mas era bonitão e sexualmente atraente. Eu preferi ficar de costas e fingir que só ligava para a paisagem por onde o ônibus passava, eu também fiquei imaginando a disparidade de situação entre eu e aquele cara: um cara bonito com cara de orgulhoso daquele, certamente tinha uma vida sexual agitada,cheia de mulheres velhas e novas, casadas e solteiras dando pra ele até cansarem, por isso a autoestima dele deveria bater lá no teto como o seu nariz também batia, enquanto eu, um viado, com mais de 40 anos, virgem, negro, pobre e feio, nunca tinha dado se quer um “selinho” em alguém que interessasse! Um misto de excitação, inveja e inconformismo me tomava por dentro.

Foi então que aconteceu o ponto mais tenso de toda viagem: eu me senti aquela mulher que parece cantora eclética de MPB, a tenente Ripley do filme “Alien, o oitavo passageiro” , afinal o rapaz hetero, bonitão que me dava medo e muita atração, havia se levantado e se dirigido à porta do coletivo onde eu estava, ele estava exatamente atrás do meu pescoço me fazendo suar frio de medo e atração. Era como se um marimbondo enorme estivesse pousado em mim, eu fiquei apavorado. Felizmente o rapaz desceu no ponto dele , foi embora e não me fez nenhum mal embora eu sentisse algo hostil por parte do olhar dele.

Já em Berlin as pessoas não têm o hábito de ficarem olhando para ninguém desconhecido na rua, exceto na hora de parar para se atravessar o farol na pista de pedestres. Fora isso, é feio ficar se olhando pessoas, mesmo assim, as vezes eu via uns rapazes tão bonitos que eu não resistia e olhava rapidamente. Eles não gostavam mas não era algo como no Brasil, me parece que o “não gostar” deles é ligado à “não invasão do espaço deles” e não à homofobia, afinal isso acontece também com as mulheres. Para se olhar um desconhecido em Berlin existe outra exceção: os policias. Sim, alguns policias alemães me olhavam, inclusive um que eu gostei, ele tinha cabelos da cor do sol da manhã, quase prateados, aparentava uns 25 anos e usava um colete daqueles que no Brasil só os “flanelinhas” usam, estava parado em frente a um furgão da policia

berlinense na Kapelle-Ufer , eu passei bem perto dele, ele ficou me olhando mas não de forma agressiva e hostil como os brasileiros nos olham, ele me olhou como se estivesse cuidando do local e mesmo e eu fosse um “gringo” , eu confesse que tive a maior vontade de dar uma daquelas cantadas de pedreiro nele, o meu lado romântico é meio calhorda mesmo, eu senti um atração respeitosa por aquele policial, uma vontade de dar em cima dele natural, eu esbocei um sorriso bem longe e fui me afastando do local mas já querendo voltar… Eu estava doido para puxar um assunto besta com aquele policial, eu estava quase que sorrindo à toa perto dele, todo derretido, mas eu falei comigo mesmo que além de não dar em nada, eu ainda poderia correr o risco de ser multado, isso me deixou frustrado, dentro da gente que é gay e gosta de hetero sempre fica aquela esperança besta de que talvez tivesse dado certo mas como diz o ditado: gato escaldado tem medo de água fria!

Por mais que eu fique interessado por alguém, agora eu engulo, guardo pra mim, com um tempo eu esqueço aquela mágoa mas a dor no peito volta ao imaginá-la, dá a impressão que eu me boicotei mas na verdade eu me defendi do que poderia ser bem pior.

Talvez a atração sexual e afetiva seja um tipo de prisão que nos faz ficarmos presos nessa suposta roda de reencarnação. Veja por um lado bom: se ninguém até hoje que eu gostei, me quis, quando eu morrer, se existir essas coisas de além da vida, eu não estarei mais preso a essa porcariada por aqui, eu não vou ter desculpa para voltar de novo, afinal ninguém aqui me quis mesmo. Os heteros alemães são mais respeitosos? São, mas eles são só pras fêmeas deles, no fundo, heteros são todos iguais, eles gostam das suas mulheres e mais nada, então é melhor eu conviver com a administração e repressão dos meus sentimentos até a minha vida infeliz acabar e eu me soltar dessa condição humilhante e degradante que é se sentir atraído por quem lhe detesta ou no melhor das hipóteses, nos despreza.

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