Qual é sensação de se levar um fora

A sensação de chegar a uma pessoa desconhecida para expor o que você sente por ela é uma coisa aterrorizante. Você faz milhões de ideias sobre a pessoa amada e imagina que só porque ela lhe atrai afetivamente ela é boa, caridosa e compreensiva, de mente aberta, nos esquecemos que a pessoa amada é tão podre e imperfeita como nós, aí vamos lá, nos declaramos a alguém estranho que escolhemos para começar uma nova experiência de vida e pronto, essa pessoa nos maltrata, sente-se invadida em seu espaço pela nossa ousadia e tudo de ruim acontece.

Quem me dera que as coisas fossem como os homofóbicos dizem por aí que é: “homossexualidade é só vontade de dar o cu a pulso e mais nada”. Eu sou homossexual e sei: você quando está perto de alguém que gosta, nem se quer precisa pensar em sexo, embora possa pensar mas é algo maior, o seu corpo e seu mental querem estar perto daquela pessoa escolhida mesmo que não seja para fazer sexo, uma simples esbarrada ou aperto de mão já lhe faz se sentir flutuando nas nuvens.

É uma coisa muito incomoda e contrastante ter aquela pessoa que antes lhe dava alegria e felicidade para viver, ser motivo de sua decepção. Aquele cara que você achava bonitinho, perfeito e brilhante de repente lhe começa olhar feio e faz de tudo para te evitar, quando vocês passam nos mesmo lugares, ele até baixa a cabeça para evitar contato contigo. Você se sente mal, você sente como um estuprador que abusou da mulher de todas as formas e depois quer a sua amizade. Sim, eu imagino que os homens todos que eu gostei, depois de saberem do que eu sentia por eles, passaram me enxergar da mesma forma que as mulheres estupradas enxergam os seus estupradores. Será que se existir vidas passadas eu estuprei várias mulheres e elas reencarnaram como homem nessa vida???
De qualquer forma, se abrir para alguém para constituir uma nova relação, uma nova vida adulta sentimental independente daquela que você teve com os pais, pra mim, é um passo muito importante para você se sentir um adulto, um ser humano portador de algum tipo de estima por si mesmo, é quase um tipo de independência psicológica dos pais. Você se abrindo para um estranho está arriscando a sua parte mais vulnerável para que outra pessoa possa atacar ou não. A beleza está aí: a pessoa tendo o poder de lhe atacar não lhe ataca, porem no mundo real de um homossexual que gosta de héteros isso não acontece, você é atacado sempre!

No meu primeiro fora recebido na vida ao dar em cima de um rapaz, descrevo isso nesse link, tive uma tempestade química e psicológica dentro de mim inimaginável, antes de me declarar ao rapaz eu senti como se tivesse caldo de limão puro circulando em minhas veias no lugar do sangue, era uma sensação ácida no peito, parecia que ia cometer um assassinato, parecia que eu iria fazer uma coisa extremamente grave e criminosa. É uma confusão: como pode uma pessoa que nos causa simpatia num primeiro momento, poder causar tanto desconforto químico e mental em nós quando tentamos justamente fazer parte do mundo dela? É estranho, é comparar aquilo que você imaginava com o que de fato é.

Bom, depois que eu levei o fora do primeiro rapaz que eu havia ousado a dar em cima na vida, eu me senti como quem é picado por um animal peçonhento em público e ainda tenta manter a pose de que nada aconteceu e que está tudo sobre controle: me senti com vergonha das pessoas que me olhavam, me senti um doido, senti provavelmente a sensação de quem rouba alguma coisa em público mas não pode levar, me senti um criminoso, uma inconveniente mas uma pessoa que pelo menos tentou lutar por aquilo que acreditava. É o sonho se diluindo na realidade feia. Eu me senti uma pessoa besta que havia ousado a querer demais da vida e que tinha batido com a cara no poste, sim, a sensação é muito parecida a de quem esta andando de carro de repente bate num poste: todos ficam te olhando, o seu nariz sente cheiro de sangue e uma certa ardência mas você acha que está tudo bem. Na verdade você sabe que não está tudo bem, mas você não quer gerar mais pânico em você e em mais ninguém, você só quer sair dali e apagar tudo, assim é levar um fora.

A minha paixão havia virado depressão e medo, eu fiquei com medo de ver aquele rapaz de novo, felizmente eu só o vi mais uma única vez, poucos dias depois, depois nunca mais o vi. Já naquela época eu já me questionava por qual motivo a minha afetividade era tão azarada e desastrosa. Fiquei deprimido mesmo, fiquei me sentindo uma criancinha de novo. Eu queria tanto escolher com quem eu iria iniciar uma vida afetiva feliz e nova mas as coisas foram totalmente contrárias, eu me sentia um estuprador, um criminoso, um assassino que precisava se esconder da polícia. Fiquei taciturno, não tinha ânimo pra brincadeira alguma, é como se da minha garganta para baixo até chegar ao meu peito o meu corpo estava chorando sem parar, sim, por fora eu ficava apático, mas por dentro, algumas partes do meu corpo estavam chorando sozinhas. Eu passei a sentir também que era uma pessoa mais feia e desinteressante do que realmente era e que ninguém existe pra mim.

Eu também me senti como se eu estivesse desrespeitando a o rapaz ao qual me declarei, violando o seu espaço, a sua bolha social, sabe quando você se sente mal por achar que está incomodando alguém? Eu também senti isso.

Depois eu tive aquela sensação de “cair a ficha”, sabe aquelas pessoas que se acidentam e na hora não sentem nada, mas depois sentem a dor e começam a se resguardarem mais? Pois é, eu senti isso. Decidi ficar na minha e não me expor mais. Por isso tudo eu posso dizer que o fora tem cheiro de soco no nariz, tem cheiro de sangue no nariz e faz a sua gargante sentir uma coisa que não desce, um choro interno.

O pior é, quando você não dá em cima de ninguém, parece uma coisa do caralho, mesmo assim aparecem heterossexuais que sentem o seu pensamento e aí começam a querer agir com você como se você tivesse dado em cima deles sem você ter dado. No meu serviço existe um rapaz assim, eu acho esse rapaz bonitinho e sempre que posso o evito com educação, mas no fundo eu o acho bonito e se ele me desse confiança talvez eu até me apaixonaria, não sei, porem eu nunca fui atrás dele, sempre respeitei o seu espaço e não fico lhe encarando, mesmo assim, de um tempo pra cá, o infeliz parece que adivinhou: ele me olha fixo e feio tipo me recriminando, sabe aquelas pessoas que te olham quando você as prejudica, Pois é, ele me olha assim e anda me evitando também. Eu juro, o único lugar que eu falei dele foi aqui e mesmo assim de forma anônima, ainda mais que esse meu blog nem audiência tem, é impossível ele saber. Parece que o satanás foi lá no ouvido dele contar que eu o acho bonito. O pior é que ele tem todo jeito daquelas direitistas teimosos que votam em Bolsonaro. O clima é de como se eu tivesse levado um fora dele antes mesmo de dar em cima dele, eu não gosto disso mas eu não tenho como evitar passar por perto dele todas as vezes, eu não posso fazer nada.

Com tudo isso eu aprendi que homossexual como eu, sofre, ama e se apaixona calado e quando quer se relacionar com alguém sexualmente, se masturba para não chorar. Essa é a minha vida.

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